Rankings e Comparações
Salário de cargo federal: quando a mediana descreve o cargo e quando não

Quando uma página diz que um cargo federal “ganha” tal valor, esse número vale para quem está no cargo? Depende muito do cargo. Em agosto de 2026, 82,7% dos procuradores da folha do SIAPE, a do Executivo federal civil, recebiam remuneração bruta a até 10% da mediana do cargo, de R$ 35.423,96. Entre os médicos federais, só 10,9% estavam tão perto da mediana deles, de R$ 15.056,89.
Dados oficiais dos portais de transparência, organizados pelo Ganha Quanto. Consultar a base →
Os números são da folha de agosto de 2026 do Executivo federal civil no SIAPE, publicada pelo Portal da Transparência. A medida é a remuneração bruta: antes dos descontos e do abate-teto, sem 13º, férias e auxílios, que o portal publica em colunas à parte. Comparamos 35 famílias de cargo com pelo menos 100 servidores, as mesmas das páginas de cargos do site. Na família do médico, como na página, ficam de fora os bolsistas do programa Mais Médicos (23.858 registros, que recebem quase todos o mesmo valor), 913 contratados temporários do Ministério da Saúde, quase todos de 24 horas, e os peritos médicos, que têm página própria. A folha usada é a do SIAPE: militares e Banco Central ficam em outros arquivos do portal, que não entram aqui; Judiciário, Legislativo e Ministério Público publicam em portais próprios.
Em quais cargos quase todo mundo recebe perto da mediana?
A tabela mostra 11 das 35 famílias, das mais concentradas às mais espalhadas. “Perto da mediana” é receber até 10% a mais ou a menos que ela.
| Cargo | Servidores | Mediana | Perto da mediana | Exatamente na mediana |
|---|---|---|---|---|
| Agente de combate às endemias | 7.191 | R$ 7.356,27 | 97,0% | 52,6% |
| Analista tributário | 6.144 | R$ 26.276,60 | 84,2% | 53,8% |
| Procurador | 5.811 | R$ 35.423,96 | 82,7% | 72,9% |
| Analista do seguro social | 4.204 | R$ 16.770,19 | 70,3% | 45,3% |
| Técnico do seguro social | 13.507 | R$ 11.677,12 | 64,0% | 25,6% |
| Assistente administrativo | 57.030 | R$ 7.556,51 | 24,1% | 1,5% |
| Enfermeiro | 5.265 | R$ 14.404,73 | 21,8% | 0,2% |
| Professor de ensino técnico | 56.725 | R$ 17.336,87 | 21,6% | 0,3% |
| Técnico de enfermagem | 6.048 | R$ 8.168,87 | 18,8% | 0,3% |
| Professor universitário | 95.941 | R$ 18.150,48 | 11,1% | 0,7% |
| Médico | 7.839 | R$ 15.056,89 | 10,9% | 0,0% |
Nas cinco primeiras linhas, a mediana é um bom palpite do contracheque de quem está no cargo. Nas quatro últimas, ela é só o ponto do meio de uma distribuição larga.
No procurador, a mediana é o próprio contracheque
Dos 5.811 procuradores da folha do SIAPE, 4.237 recebiam exatamente R$ 35.423,96 em agosto, ao centavo. São 72,9% do cargo. Quase todos são procuradores federais (3.595) ou da Fazenda Nacional (2.215). A média, de R$ 35.733,28, fica colada na mediana.
Entre os cargos da tabela, o caso mais extremo é o do agente de combate às endemias. Os 7.191 servidores da tabela somam três registros da folha: dois grandes, de agente e de guarda, e um de 4 pessoas. No registro principal de agente, sem os guardas, 3.782 dos 3.919 (96,5%) tinham bruta de exatamente R$ 7.356,27. Os guardas de endemias não têm ninguém nesse valor, mas ficam perto dele: 93,5% recebem até 10% a mais ou a menos.
No analista tributário da Receita Federal, 3.305 dos 6.144 (53,8%) recebiam R$ 26.276,60. A folha mostra que milhares de pessoas têm o mesmo valor; ela não diz por quê.
No médico, a mediana cai entre grupos que ganham diferente
A jornada separa o médico federal em dois grupos grandes. A mediana de quem tem 20 horas semanais é R$ 9.599,17 (4.309 médicos); a de quem tem 40 horas, R$ 29.075,39 (3.085). A mediana da família, R$ 15.056,89, fica no meio do caminho e descreve pouca gente dos dois lados.
Dentro de cada jornada há ainda dois registros de cargo que quase não se misturam. “Médico” está 91% no Ministério da Saúde (2.198 de 2.415); “Médico – PCCTAE”, 93% em universidades federais (4.450 de 4.764):
| Registro na folha | Jornada | Servidores | Mediana |
|---|---|---|---|
| Médico | 20 horas | 1.799 | R$ 8.849,29 |
| Médico | 40 horas | 600 | R$ 16.285,63 |
| Médico – PCCTAE | 20 horas | 2.333 | R$ 12.611,55 |
| Médico – PCCTAE | 40 horas | 2.429 | R$ 31.166,00 |
Na mesma jornada de 40 horas, a mediana do registro das universidades é quase o dobro da do outro. A folha não explica a diferença.
Técnico de enfermagem e professor universitário juntam grupos diferentes
No técnico de enfermagem, o que separa os grupos não é a jornada: nos dois registros maiores, quase todos são de 40 horas. “Técnico de Enfermagem-MS 40H NI” tem 1.251 servidores, todos no Ministério da Saúde, e 1.077 deles (86,1%) recebiam exatamente R$ 3.222,73. “Técnico em Enfermagem” tem 4.530, com mediana de R$ 9.180,32. A mediana da família, R$ 8.168,87, não é a mediana de nenhum dos dois.
No professor universitário, a família soma regimes de trabalho e vínculos diferentes. A mediana de quem está em dedicação exclusiva é R$ 21.347,73 (80.679 professores). Nas 40 horas, é R$ 7.805,15 (9.947), e mais da metade desse grupo é de professores substitutos (5.027). Nas 20 horas, R$ 4.238,14 (5.315).
Nos cargos de distribuição larga, separar o grupo diminui a distância, mas ela não some
Uma forma de medir o quanto um cargo se espalha é comparar duas pessoas: a que fica no limite dos 10% de maior bruta e a que fica no limite dos 10% de menor bruta. No procurador, a primeira ganha 1,1 vez o que ganha a segunda. No médico, considerada a família inteira, 4,7 vezes.
No médico, no professor universitário e no técnico de enfermagem, quando se fixam o registro de cargo e a jornada no maior grupo, a distância diminui, mas continua lá:
| Grupo | Servidores | Quantas vezes |
|---|---|---|
| Médico – PCCTAE, 40 horas | 2.429 | 1,8 |
| Professor do Magistério Superior, dedicação exclusiva | 79.893 | 2,0 |
| Técnico em Enfermagem, 40 horas | 4.495 | 2,2 |
O que sobra dessa distância a folha não decompõe. A remuneração bruta mistura progressão, titulação, função comissionada e adicionais, sem dizer quanto é cada coisa.
O que o dado não diz
- Por que tanta gente recebe o mesmo valor no procurador, no analista tributário ou no agente de endemias. A folha mostra a concentração, não a regra que a produz.
- O salário de entrada. A mediana é de quem está no cargo hoje, em qualquer etapa da carreira. Para saber quanto ganha quem acaba de passar, o documento é o edital, e os dois números podem ser bem diferentes, como mostra o post salário do edital e contracheque.
- Mais de um mês. Os números são de agosto de 2026. A jornada é a que o cadastro do portal informa para cada servidor.
Para que serve este número
Antes de usar a mediana de um cargo para planejar a vida, pergunte quem está dentro dela. Num cargo como o procurador, ela é um bom resumo. Num cargo como o médico, ela mistura jornadas e órgãos que pagam diferente. A página do médico tem uma seção com a mediana de cada jornada e uma lista dos órgãos que mais pagam, esta pela média. A faixa que aparece nas páginas de cargo soma as esferas de governo que o site cobre e pode juntar mais de um mês, então não é a mesma conta deste post, que usa só o federal de agosto.
Se você já é servidor, a ferramenta meu salário está acima ou abaixo da média? mostra em que ponto da distribuição do seu cargo você está. Para entender quanto do bruto chega à conta, veja o post sobre salário bruto e líquido do servidor federal. E para ver o contracheque de quem ocupa um cargo específico, use a busca de remuneração de servidores públicos.
Como medimos
Cada família de cargo junta os registros da folha que o site trata como o mesmo cargo, como na página de cada um. Contamos só quem teve remuneração bruta maior que zero em agosto de 2026. A mediana é o valor do meio: metade recebe mais, metade menos. “Perto da mediana” é a fatia com bruta entre 90% e 110% dela. “Quantas vezes” divide o percentil 90 pelo percentil 10 da bruta. Grupos com menos de 100 servidores ficaram de fora.
Consulte a remuneração você mesmo
Os números deste texto saem da mesma base que alimenta a busca do site — dado oficial, com o mês de referência sempre declarado.