Público x Privado

Duas medidas da mesma profissão

Autor Equipe Ganha QuantoPublicado Dado de julho/2026 (folha pública) e agosto/2025 a julho/2026 (admissões CLT)Fonte Portal da Transparência do Governo Federal — SIAPE, jul/2026 — e Microdados do Novo CAGED — MTE/PDET, admissões de ago/2025 a jul/2026

Duas medidas da mesma profissão

Enfermeiro tem duas páginas neste site. Numa delas a mediana é R$ 14.456,98 — a folha de julho de 2026 de quem já é enfermeiro no Executivo federal, em jornada de 40 horas. Na outra é R$ 4.102,27 — o salário de admissão de quem foi contratado com carteira assinada entre agosto de 2025 e julho de 2026, na jornada de 31 a 39 horas, a mais contratada da ocupação. Os dois saem de fonte oficial, os dois estão certos e medem coisas diferentes: dividir um pelo outro produz um número que não descreve nem um grupo nem o outro.

Enfermeiro, folha federal 40h
R$ 14.456,98
Enfermeiro, admissão CLT 31-39h
R$ 4.102,27
Profissões com os dois lados
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Dado extraído da nossa base: portais oficiais de transparência, no setor público, e microdados do Novo CAGED, no setor privado. Ver as profissões → · Consultar a base →

Quem chega perguntando “compensa mais concurso ou CLT?” quer um número só. Esse número não existe — mas cada um dos dois responde uma pergunta boa, e dá para saber qual é qual.

O que cada lado mede

Serviço público, em /remuneracao/ Setor privado, em /salarios/
Quem está na conta quem já ocupa o cargo quem foi contratado no período
Momento da carreira qualquer um: do primeiro mês aos trinta anos de casa a entrada, e só ela
Recorte de tempo a folha de um mês (julho de 2026) doze meses de admissões (ago/2025 a jul/2026)
O que o valor é a coluna de remuneração bruta do mês — uma parcela do que o órgão pagou, não o total o salário fixo do contrato, como o empregador declarou
O que fica de fora décimo terceiro, férias, pagamentos eventuais e verbas indenizatórias, cada um em coluna à parte comissão, hora extra, PLR e qualquer benefício
Quem informa o órgão, ao Portal da Transparência o empregador, ao Ministério do Trabalho

Nenhuma operação aritmética entre as duas colunas devolve algo que descreva alguém.

Três profissões, os dois lados

Lado público: Executivo federal, julho de 2026, bruta, jornada de 40 horas. Lado privado: admissões de ago/2025 a jul/2026 no Brasil, na faixa de jornada mais contratada de cada ocupação.

Profissão De onde vem o número Jornada Registros P10 Mediana
Enfermeiro folha federal, quem já está no cargo 40h 5.063 R$ 10.544,06 R$ 14.456,98
Enfermeiro admissão CLT, quem foi contratado 31 a 39h 47.236 R$ 3.025,00 R$ 4.102,27
Analista de TI folha federal, quem já está no cargo 40h 3.624 R$ 7.347,36 R$ 13.974,74
Analista de TI admissão CLT, quem foi contratado 40h 68.589 R$ 2.500,00 R$ 6.500,00
Motorista folha federal, quem já está no cargo 40h 2.070 R$ 3.638,21 R$ 6.345,60
Motorista admissão CLT, quem foi contratado 41 a 44h 250.549 R$ 1.800,00 R$ 2.455,95

As linhas de cima contam servidores num mês; as de baixo, admissões em doze meses. São 2.070 motoristas na folha federal de julho contra 250.549 admissões de motorista na faixa de 41 a 44 horas ao longo de um ano — 286.051 somando todas as faixas de jornada. Não é a mesma grandeza nem no denominador. E são admissões, não pessoas: quem foi contratado duas vezes na janela conta duas vezes, e o microdado não permite separar.

Por que a conta não se faz

A população. Em cima está quem já ocupa o cargo — pode ter entrado no mês passado ou em 1998, e o arquivo não diz quando nem como cada um entrou. Nem todos são estatutários: na linha do motorista, 356 dos 2.070 aparecem com vínculo de emprego público ou celetista. Embaixo está exclusivamente quem assinou contrato na janela de doze meses. Um lado é a distribuição de quem está dentro; o outro, a de quem está entrando.

A composição do valor. A bruta da folha não é tudo o que o órgão pagou no mês: décimo terceiro, férias, pagamentos eventuais e verbas indenizatórias são publicados em colunas próprias, fora dela. Dos 2.070 motoristas federais da tabela, 1.635 receberam décimo terceiro, férias ou algum pagamento eventual em julho, e 1.716 receberam verba indenizatória — nada disso está na bruta. E o arquivo não separa quanto da bruta é tabela, quanto é tempo de casa e quanto é gratificação.

O salário do CAGED é o valor fixo do contrato no dia da admissão — sem comissão, hora extra, participação nos lucros ou vale. São dois recortes feitos por critérios diferentes, e nenhum dos dois é tudo o que a pessoa recebe. Auxílio-alimentação, por exemplo: no federal fica fora da bruta por ser indenizatório; no CAGED não existe como campo.

O número que chega mais perto — e o que ele não é

Se a comparação tiver mesmo que existir, o candidato menos ruim do lado público não é a mediana: é o P10, o valor abaixo do qual ficam os 10% que menos ganham.

Só que o P10 não é o salário de entrada do cargo. Medimos o P10 da folha contra o vencimento básico inicial de editais federais de 2026, na mesma jornada, em três carreiras — e nenhuma delas é analista de TI ou motorista. Em professor do magistério superior o P10 bateu exatamente o valor do edital. Em assistente em administração ficou acima, e em enfermeiro federal ficou bem acima — ou seja, a única das três profissões deste post que chegou a ser medida contra edital é justamente a que mais se afastou. O vencimento do edital também é uma parcela só: adicionais que o servidor recebe desde o primeiro mês ficam fora dele e dentro da bruta da folha, e a medição não separa esses adicionais do tempo de casa. A distância entre o P10 e o edital tem, portanto, mais de uma origem possível, e o dado não diz qual pesa mais. Responder “quanto paga de verdade” continua exigindo o edital comparado ao contracheque, cargo a cargo.

Nem a jornada é a mesma

Nas três profissões acima, todos os registros federais de julho declaram jornada, e ela é de 40 horas em quase todos: 2.071 de 2.071 no motorista, 5.064 de 5.257 no enfermeiro, 3.632 de 3.679 no analista de TI. (A coluna “Registros” da tabela deixa de fora os poucos contracheques sem bruta publicada.)

No privado, a jornada mais contratada muda de profissão para profissão: no enfermeiro são 47.236 admissões na faixa de 31 a 39 horas, contra 14.217 na de exatamente 40; no motorista, a de 41 a 44 horas concentra 250.549. Por isso todo número do lado privado deste site sai com a faixa ao lado — e por isso as duas linhas de enfermeiro da tabela acima descrevem semanas de trabalho de tamanhos diferentes.

O que o dado não diz

  • Não diz por quê. As duas fontes mostram distribuição; nenhuma explica a causa de um valor. Piso, acordo coletivo, lei de carreira, setor e região não entram como explicação.
  • O lado público aqui é só o Executivo federal. Judiciário, Legislativo e Ministério Público publicam em portais próprios; os militares estão em arquivo separado que não ingerimos. Estado e município têm suas próprias páginas em /remuneracao/.
  • A ocupação do CAGED é a que o empregador declarou ao ministério, não uma verificação do que a pessoa faz. Quem declara atividade de administração pública fica fora do lado privado — nas três células usadas aqui, menos de 1% antes do corte.
  • Nem toda profissão pública tem lado privado. Delegado, escrivão, investigador, perito criminal e procurador não têm: o código de ocupação existe na classificação oficial, e no mês apurado para montar a ponte entre os dois ramos, julho de 2026, nenhum deles registrou uma única movimentação de emprego com carteira assinada. São 23 as profissões com os dois lados nesta apuração.

Qual página abrir

  • Quanto ganha quem já ocupa um cargo público, e com que distância entre piso e topo: /remuneracao/cargos/.
  • Com quanto o mercado está contratando numa profissão, e em qual jornada: /salarios/.
  • O contracheque de um órgão, cargo ou mês específico: busca de remuneração.

Os dois ramos ficam no mesmo site de propósito. O que eles não fazem é virar um número só.

Consulte a remuneração você mesmo

Os números deste texto saem da mesma base que alimenta a busca do site — dado oficial, com o mês de referência sempre declarado.

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