Público x Privado
Arquiteto e engenheiro: as profissões parecidas que o site não junta

Arquiteto e engenheiro são contratados pelo mesmo salário? Não. Entre agosto de 2025 e julho de 2026, a mediana do salário de admissão do engenheiro com carteira assinada, na jornada de 41 a 44 horas semanais, foi de R$ 10.775,00; a de arquitetos e urbanistas, na mesma jornada, foi de R$ 4.500,00. Metade das contratações ficou acima de cada valor, metade abaixo.
Dado extraído dos microdados do Novo CAGED, do Ministério do Trabalho e Emprego. Ver as profissões →
Os números são do Novo CAGED, os microdados de admissão do Ministério do Trabalho: 25.437 contratações de engenheiro e 1.890 de arquiteto e urbanista nessa jornada, sem contar empregadores que declaram administração pública como atividade. A página de engenheiro do Ganha Quanto não inclui os arquitetos, porque na CBO eles são outra ocupação. É uma de 20 junções que decidimos não fazer; abaixo estão todas, com o motivo.
Por que alguém precisa decidir o que entra em cada profissão?
O CAGED não registra “engenheiro” ou “advogado”. Registra um código da CBO, a Classificação Brasileira de Ocupações, que o empregador declara ao contratar. Uma profissão que você conhece por um nome só pode estar espalhada por dezenas de códigos: a página de engenheiro soma 60.
Para montar as páginas de /salarios/, alguém decide quais códigos formam cada profissão. A tabela que faz isso tem 304 famílias e 660 códigos, e 283 dessas famílias viraram página. Em 28 delas, a mesma profissão aparece também na folha dos servidores, em /remuneracao/cargos/, e os dois lados precisam falar da mesma coisa.
Em 17 famílias, registramos 20 recusas: códigos ou recortes que pareciam pertencer a elas e ficaram de fora, cada um com o motivo escrito.
Quanto a mediana mudaria se juntássemos
Salário de admissão, jornada de 41 a 44 horas semanais, agosto de 2025 a julho de 2026. A última coluna é a mediana que a página publicaria se o código recusado entrasse.
| Página publicada | Ficou de fora | Mediana da página | Mediana do que ficou fora | Se juntasse |
|---|---|---|---|---|
| Engenheiro | arquitetos e urbanistas | R$ 10.775,00 | R$ 4.500,00 | R$ 10.302,00 |
| Advogado | consultor jurídico | R$ 4.006,30 | R$ 3.000,00 | R$ 3.800,00 |
| Motorista | motorista de caminhão | R$ 2.455,95 | R$ 2.745,00 | R$ 2.670,00 |
| Bibliotecário | analista de informações | R$ 3.436,05 | R$ 4.116,85 | R$ 4.000,00 |
| Analista de TI | programadores de nível técnico | R$ 4.500,00 | R$ 3.370,00 | R$ 4.014,67 |
| Contador | auditor e perito contábil | R$ 4.200,00 | R$ 2.995,27 | R$ 4.011,55 |
| Diretor de escola | fora da escola regular | R$ 5.799,00 | R$ 3.000,00 | R$ 4.000,00 |
O efeito varia de caso a caso, e o tamanho do grupo de fora não diz sozinho quanto a mediana andaria. No engenheiro, mesmo com salários de entrada muito diferentes, ela cairia 4,4%. No diretor de escola, cairia 31%.
O bibliotecário mostra outro problema. O código de “analista de informações” teve 3.237 admissões nessa jornada, contra 478 de bibliotecário: 6,8 vezes mais. Juntá-los faria a página subir 16,4% e falar, na maior parte, de outra ocupação. O motorista de caminhão, com 2,2 vezes as admissões dos outros motoristas juntos, tem a página dele.
O caso que mais mudaria o número: diretor de escola
O código 131305 da CBO é “diretor de instituição educacional da área privada”, e os empregadores o declaram em creches, escolas, faculdades e autoescolas. A página de diretor de escola usa só as escolas de educação infantil, ensino fundamental e ensino médio.
Fora desse recorte ficaram 672 admissões de 41 a 44 horas, com mediana de R$ 3.000,00. O maior grupo é o de autoescolas: 234 contratações, com mediana de R$ 2.609,75. Se tudo entrasse, a mediana da página cairia de R$ 5.799,00 para R$ 4.000,00, uma queda de 31%.
Os motivos das 20 recusas
É outra ocupação na CBO (11 casos). Nome parecido ou mesmo grupo, mas outra ocupação na classificação:
- consultor jurídico, fora de advogado;
- analista de informações e documentalista, fora de bibliotecário;
- auditor e perito contábil, fora de contador;
- arquitetos e urbanistas, fora de engenheiro;
- zootecnista, fora de médico veterinário;
- dietista, fora de nutricionista;
- psicopedagogo, fora de pedagogo;
- pedagogo, fora de coordenador pedagógico;
- programador, fora de analista de TI e de técnico de TI.
Outro nível de formação (5 casos). Os tecnólogos ficam fora de engenheiro. Enfermeiro, técnico e auxiliar de enfermagem têm páginas separadas, e nenhuma soma as outras. O auxiliar de laboratório fica fora de técnico de laboratório.
Os outros quatro. Procurador fica fora de advogado porque é carreira pública. Motorista de caminhão fica fora de motorista por ser uma ocupação bem maior, que mudaria o número. Autoescola, cursos livres e ensino superior ficam fora de diretor de escola pelo recorte de atividade. Professor universitário e professor de ensino técnico ficam fora do professor da educação básica porque têm página própria.
A regra: na dúvida, fica de fora
Nas profissões que aparecem dos dois lados, um código só entra se a folha pública tiver um cargo com nome correspondente. A família de engenheiro reúne 89 nomes de cargo nas folhas que o site lê, e nenhum fala em arquiteto. A de advogado reúne 25, e nenhum é consultor.
A própria CBO separa os dois: arquitetos e urbanistas formam uma família à parte, a 2141, ao lado das famílias de engenharia. A regra do engenheiro é uma só, e substituiu três listas escritas à mão: entra todo código do grupo 214 cujo título começa com “Engenheiro”. São 60 códigos. Ficam fora os 6 de arquitetura e urbanismo, os 12 de tecnólogo e o de higienista ocupacional.
O que o dado não diz
- A ocupação é a declarada pelo empregador. O CAGED não confere o que a pessoa faz nem o diploma dela.
- É salário de entrada, não de carreira. Sem comissão, hora extra nem benefício.
- A causa da diferença não aparece. O dado mostra que o engenheiro foi contratado por mais; não diz por quê.
- A jornada muda o quadro. Na jornada de 40 horas, a distância encolhe: R$ 12.100,00 para o engenheiro e R$ 10.302,00 para arquitetos e urbanistas. Nessa jornada, 131 das 701 admissões de arquiteto e urbanista foram exatamente em R$ 10.302,00, então a mediana gruda nesse valor.
- As recusas são critério nosso. Elas dizem como o site monta cada página, não que uma profissão vale mais que a outra. Com outra régua, as junções seriam outras.
Para que serve este número
Se você é arquiteto, a página de engenheiro não é a sua referência, e o mesmo vale para o consultor jurídico diante da de advogado. Antes de levar um número de /salarios/ para uma negociação, confira o que ela soma: o bloco “O que entra nesta conta” diz quais ocupações estão no número, e “O que não entra” diz quais ficaram de fora. Se a sua está na segunda lista, o valor publicado não é o seu.
Se você pensa em concurso, a mesma profissão no serviço público está em engenheiro, advogado, bibliotecário e diretor de escola. Lá o número é a remuneração de quem já está no cargo, não o salário de entrada: as duas medidas não se dividem uma pela outra, como explica este post. Para achar um cargo específico, use a busca de remuneração de servidores públicos.
Como medimos
Admissões do Novo CAGED de agosto de 2025 a julho de 2026, com as regras das páginas de /salarios/: fora aprendiz, intermitente e quem declara administração pública como atividade, só com jornada declarada. Os códigos recusados foram medidos do mesmo jeito, nos mesmos arquivos. A tabela usa 41 a 44 horas porque é a jornada que mais contrata em seis das sete profissões. Mediana, e não média, porque poucos salários muito altos puxam a média para cima.
Veja o salário por profissão
O salário de admissão com carteira assinada, por jornada, nas profissões que o site publica — da mesma apuração deste texto.