Rankings e Comparações
O corte de R$ 16 milhões que aparece no contracheque de julho

A Constituição fixa um limite para o que um servidor público pode receber: o teto, amarrado ao subsídio de ministro do STF. Hoje esse valor é de R$ 46.366,19 por mês — fixado pela Lei 14.520/2023 e em vigor desde 1º de fevereiro de 2025, última etapa de um reajuste escalonado em três anos.
Dado extraído da nossa base de remuneração, montada a partir dos portais oficiais de transparência. Consultar a base →
Na prática, nem todo mundo cabe nele. O que passa é cortado antes do pagamento, numa linha chamada abate-teto.
Em julho de 2026, o Executivo federal aplicou abate-teto em 9.405 servidores. O total cortado no mês foi de R$ 16.063.956,50.
O maior corte individual: R$ 46.615,99 em um único contracheque — ou seja, foi cortado de uma pessoa, em um mês, mais do que o teto mensal inteiro.
A bruta publicada é antes do corte
Aqui está o detalhe que muda a leitura de qualquer estatística de salário público: a “remuneração básica bruta” que o portal publica é o valor antes do abate-teto. O corte aparece numa coluna separada e só é descontado no cálculo da remuneração líquida — é assim que o dicionário de dados do Portal da Transparência define as duas colunas, e é assim que a conta fecha, centavo a centavo, em todos os contracheques federais de julho.
Consequência prática: quem soma as remunerações brutas publicadas para saber quanto o governo pagou superestima o valor. Em julho, a diferença foi de R$ 16 milhões — dinheiro que aparece na bruta, mas nunca chegou a ser pago.
Em 2.227 casos o corte é exatamente o que excede o teto: bruta menos abate-teto dá R$ 46.366,19, sem um centavo de diferença. Mas a maioria dos 9.405 que sofreram abate tem bruta publicada abaixo do teto. Nesses casos o limite foi aplicado sobre uma soma que o arquivo não mostra — o teto vale para o total que a pessoa recebe do poder público, e parte disso pode vir de outro vínculo ou benefício. O portal publica o corte, mas não a base sobre a qual ele foi calculado.
Quem recebe acima de R$ 46.366,19, por esfera
O abate-teto é uma coluna que o portal federal publica explicitamente. Estados e municípios nem sempre fazem o mesmo — mas dá para contar quantos registros ficam acima dos R$ 46.366,19 em cada fonte:
| Esfera | Servidores na base | Bruta acima de R$ 46.366,19 | % |
|---|---|---|---|
| Federal (Executivo) | 513.060 | 2.601 | 0,51% |
| Estado de São Paulo (só ativos) | 509.818 | 3.580 | 0,70% |
| Prefeitura de São Paulo | 127.694 | 2.229 | 1,75% |
Três ressalvas antes de comparar as linhas, porque elas não são simétricas. A primeira vale para todas: bruta acima de R$ 46.366,19 não é o mesmo que receber acima do teto, porque parte do que entra na bruta pode ficar fora do limite e cada carreira tem o seu.
A de São Paulo é a mais importante: em julho de 2026, 27% da folha municipal foi paga numa única rubrica, “Demais Elementos da Remuneração”, que o portal da Prefeitura não detalha. É ela que leva boa parte desses contracheques acima do teto, e sem saber o que ela contém não dá para dizer quanto da proporção de 1,75% é salário e quanto é outra coisa.
A segunda: no Estado de São Paulo, a bruta que o portal publica soma ao salário do mês as férias e o 13º, os pagamentos eventuais, a licença-prêmio indenizada e o abono de permanência e outras indenizações, e já vem com o redutor salarial descontado. Contando só o salário do mês — a coluna Remuneração do portal estadual —, os registros acima de R$ 46.366,19 em julho caem de 3.580 para 1.301.
A terceira: a base do Estado de São Paulo cobre apenas servidores ativos. Inativos e pensionistas ficam de fora, e eles têm perfil de remuneração diferente — incluí-los mudaria o percentual.
É um bom exemplo de por que um número sozinho não é uma conclusão.
Consulte a remuneração você mesmo
Os números deste texto saem da mesma base que alimenta a busca do site — dado oficial, com o mês de referência sempre declarado.